sábado, 15 de março de 2014

Levará mais que oitenta minutos para ocupar, de fato, as favelas do Rio...

A tragédia anunciada, como destaca o título desta postagem – retirado de “As Crimeias do Brasil” -, é a triste constatação de que houve um percurso, temporal e contextual, para que as condições dos morros cariocas “chegassem” ao ponto em que estão...

Não é razoável imaginar que a presença policial, por via de BOPE e UPPs, dê conta de solucionar a questão da violência/insegurança/criminalidade cabalmente. A Polícia é um fator importante para a produção de ambientes seguros, mas, certamente, é apenas UM dos diversos fatores que compõem o contexto “FAVELA”.

Menosprezar outros fatores (sociais, políticos, econômicos, conjunturais) não altera o resultado “insegurança pública”, a (re)tomada, pelo BOPE - em situação militar – do Morro do Alemão é a constatação de que há um equívoco grave no processo.


Policiais mortos/feridos/desmoralizados a unir-se à população com seus mortos/feridos/desmoralizados indicam que atividades de Segurança Pública são complexos, talvez além da compreensão...

sexta-feira, 14 de março de 2014

As gincanas da barbárie e do terror

A foto abaixo mostra um manifestante “surfando” num veículo que foi vandalizado durante os protestos pelo início de cobrança do estacionamento.



O caso é que administração da Companhia de Entreposto e Armazéns Gerais de São Paulo (Ceagesp), na cidade de São Paulo/SP, passou a cobrar dois reais o estacionamento de veículos no estacionamento e quatro a cinco reais pelos caminhões.

Um grupo de revoltados iniciou o tradicional “quebra-quebra” – normal em manifestações "pacíficas" – e seguiu destruindo e incendiando o que encontrava pela frente, em sua “justa” expressão de inconformismo com a cobrança do estacionamento. O Policiamento de Choque foi chamado, para possibilitar ao Corpo de Bombeiros extinguir os incêndios no local.

Esta manifestação, e as outras que ocorrem diariamente, têm demonstrado, nitidamente, o uso franco da violência e terror para expressar descontentamento. Parece que está em curso neste país a implantação do reino dos malcriados birrentos, com uma diferença a destacar, a marra não é de um indivíduo, é de grupos de pessoas, que ameaçam, o tempo todo, recorrer a retaliações/vandalismo/terror quando sua vontade for contrariada.


Outro ponto importante é o efeito “farra-ostentação”, ou seja, os motivos para as manifestações ficam de lado quando a manifestação se transforma numa gincana, a destacar os mais ousados, os mais bárbaros, os mais apavorantes.

quinta-feira, 13 de março de 2014

Quase metade dos brasileiros sente insegurança nas cidades

No total, 76,9 milhões de brasileiros não se sentem seguros nas cidades onde vivem, o equivalente a cerca de 47,2% da população, segundo a sondagem "Caracterização da vitimização e do acesso à Justiça no Brasil".

A sondagem revelou ainda que 21,4% não se sentem seguros nem mesmo em casa, enquanto que, no bairro, a sensação de insegurança atinge 32,9 por cento da população.

Cerca de 60% dos domicílios (34,8 milhões) tinham algum dispositivo de segurança, sendo a grade em janelas o item mais utilizado, segundo o levantamento realizado no último trimestre de 2009. 

As Crimeias do Brasil

Duas favelas cariocas foram “ocupadas” para a instalação de Unidades Pacificadoras de Polícia, e isto em pouquíssimo tempo (cerca de oitenta minutos), entretanto o olhar interdisciplinar a buscar os valores subjacentes à mensagem, e a tratar os termos “pouco tempo” e “muito tempo”, sobretudo sob aporte das indicações do contexto contemporâneo e explorar o percurso ocupação-desocupação-ocupação.

Ocupadas “estavam”, fato sabido universalmente, as favelas nomeadas na reportagem. As forças do Estado (des)ocuparam, por sua presença e ação, o espaço físico sob o mando dos narco-traficantes, e, com isso, (re)ocuparam os territórios em nome do Estado, ou seja, o que antes era “terra de bandido” agora (???) está sob a tutela do Estado, como se não estivesse antes, se estivesse não haveria necessidade de “ocupação”.

Todo o processo acima foi relatado como de curtíssima duração, aliás, quase todo o processo acima, pois o estado primitivo de ocupação, por organizações criminosas, não foi de curtíssima duração, foi um longo processo histórico, vivenciado por gerações.

Acredito que a ocupação não se traduz, precisamente, em manter ocupado. Penso que a manutenção da ocupação é que é o processo chave. Mas se a população não foi retirada e, de fato, ocupa o espaço físico, não é o caso de dizer que as favelas sempre estiveram ocupadas? A ocupação por pessoas relegadas a segundo plano pelo Estado resulta em necessidade de ocupação?

O termo “ocupação” nos remete a processos militares, ou seja, buscar o inimigo em seu território e libertar este território da influência inimiga.


Não é o caso de colocar em julgamento o conceito, em si, das operações e implantações de UPPs, mas sim de entender o quanto está imiscuído à cultura brasileira as questões de insegurança pública em relação ao abando no Estado, que para atender seus cidadãos precisa de um processo de “ocupação”. Talvez sem levar em consideração o tempo, e os processos sociais, que durou a ocupação dos morros e favelas pelo crime organizado.

Assim com a península da Crimeia, na Ucrânia, tem a população composta por mais russos que ucranianos, num processo que é histórico, remontando séculos, nossas favelas foram ocupadas num processo muito mais antigo que as UPP, com os decorrentes traços sociais e culturais...

Levará mais que 80 minutos para ocupar de fato as favelas.

quarta-feira, 12 de março de 2014

Meu pé de laranja lima...

Moradora de Ponta Grossa/PR se defende como pode e cerca seu pé de laranja, com madeira e arame farpado. A atitude gerou polêmica visto que a árvore está plantada na calçada, espaço urbano público. Os vizinhos da precavida senhora não gostaram da possibilidade de seus filhos tentarem furtar laranjas e se espetarem no arame farpado.

A dona do pé de laranja teme que os frutos da árvore sejam roubados, segundo a nota, todavia pode ser que a defesa tenha por foco os destruidores de árvores, prática bastante em grandes cidades.

A cerca, pelas fotos, parece ser bem feita e exigiu, certamente, investimento à moradora, o que possibilita dois entendimentos imediatos, a expectativa do “crime” e a importância da laranjeira.

Guardadas as devidas proporções, há uma prática comum que também viola os direitos dos cidadãos à cidade: Condomínios Fechados. Há casos em que se fecham ruas/avenidas e faz-se o uso de infraestrutura pública (arruamento, rede elétrica, saneamento básico) para fins particulares, todos pagam e alguns particularizam o usufruto.

Desde conjuntos habitacionais de baixa renda a condomínios de alto padrão temos a ocupação de pedaços das cidades, a impor ao todo segregação espacial para uso de alguns.

As motivações da segregação espacial autoimposta são idênticas ao que ocorre no caso da laranjeira, a expectativa do crime e a importância de morar bem.


No caso das laranjas penso que plantar muitas árvores frutíferas nas calçadas resolveria o problema de roubos (não haveria motivo para roubar/furtar o que existe à disposição), não digo o mesmo em relação aos vândalos.

Com respeito aos condomínios fechados a questão apresenta um obstáculo de difícil transposição, a considerar que os altos muros se destinam a proteger a vida, a incolumidade física e bens.

terça-feira, 11 de março de 2014

Quem tem olhos para ver, que veja ! (A sociedade está nua)

Ontem foi Andersen quem mostrou o descompasso entre as imagens e os discursos, no conto “A roupa nova do rei”, e hoje é o telejornal mais capilarizado, em termos de audiência, no Brasil. Registra-se a derrocada do Estado de Direito, nas imagens de policiais militares sendo intimidados porbandidos. Basta se juntar e “fazer frente” aos encarregados da aplicação da lei, em outras palavras, quando o CRIME encontra a oportunidade “tá tudo dominado”.

Os comentários de entrevistados (profissionais da segurança pública) reproduz, na íntegra, a tentativa de mostrar algo que está diametralmente oposto às imagens vistas em rede nacional de televisão...

Um policial diz que os policiais, no exercício da profissão, precisam ter “tolerância acima do normal para lidar com este tipo de atuação técnica”. Ver os patrulheiros apanhando e, ainda assim, inertes, mesmo quando a viatura do Estado é destruída, não parece ser um exercício de tolerância, é claro que o momento é de impotência total diante de um bando de pessoas que simplesmente os proíbe de executar qualquer ação, sendo assim o que resta aos reféns da marginalia é a não-ação...

Outro ponto interessante refere-se à tentativa de inibir as ações criminosas:
Nós conseguimos identificar grande parte dos elementos e eu irei pedir a prisão desses criminosos pelo crime de associação para o tráfico.

Fico a pensar que nenhum dos delinquentes fica apreensivo com tal afirmação, em primeiro lugar porque todos têm passagens pela Polícia, ou seja, presumem, com conhecimento de causa, que nada mais grave vai acontecer. Há também que se considerar que ultimamente nenhum bandido foge das câmeras, elas são ignoradas, inclusive com roubos e estupros em ônibus, diante de celulares, câmeras de segurança instalada nos coletivos, muitos não se preocupam em esconder o rosto...

A população, aturdida, relata constantes ações de violência por parte de organizações criminosas contra policiais.

Especialistas se esmeram em descrever e analisar a questão...

Por fim uma profissional diz que nada vai impedir o trabalho de pacificação da Polícia, pois é... Se intimidar, destruir uma viatura a pauladas, bater e usar de força física contra policial militar que tentou apreender uma sacola com drogas e armas, não impede o trabalho policial, então é o caso de voltar ao dicionário e redefinir os significados de "impedir" e "pacificação"...


Entretanto a situação mais delicada ainda não é a vivenciada pelos policiais espancados e sim dos moradores, visto que em algum momento o plantão dos patrulheiros acaba, porém a convivência da população com os marginais é perene... A sociedade está nua!

segunda-feira, 10 de março de 2014

Quem tem olhos para ver, que veja !

Hans Christian Andersen, o autor dinamarquês de contos infantis, nos brindou, adultos e crianças, com o conto “A roupa nova do rei”.

No conto há o rei, extremamente vaidoso, sua corte, o povo e um malandro passando-se por  alfaiate de renome e grande talento.

A roupa, que é mágica, cosida com fios de ouro, e esplêndida, cheia de detalhes, magnífica, guarda uma peculiaridade, para enxergá-la é preciso ser inteligente. Os estúpidos não conseguem ver a fazenda que é tecida no tear encantado. A ressalva é um aviso do “alfaiate”.

O bandido recebeu vários baús cheios de riquezas, rolos de linha de ouro, seda e outros materiais raros e exóticos, exigidos por ele para a confecção das roupas. Ele guardou todos os tesouros e ficou em seu tear, fingindo tecer fios invisíveis, que todas as pessoas alegavam ver, para não parecerem estúpidas.


Ao final do trabalho, o rei, que também não quer ser estúpido, veste seus trajes e desfila nas ruas de sua capital, para o povo. Todos aplaudem a elegância real... Porém uma criança, que não foi aprisionada pelos laços do “politicamente correto”, brada na direção do monarca: O REI ESTÁ NU!

O imperador sentiu o sangue gelar, pois percebeu que todo mundo tinha razão, mas pensou consigo: “Agora preciso continuar até o fim do desfile”.E os valetes iam andando atrás, carregando uma cauda que simplesmente não existia.



Morais da história:

1- Mesmo as políticas públicas de segurança e os conceitos mais estapafúrdios continuam sendo aplicados por governos que parecem não se importar com os olhares populares, que não enxergam nenhuma eficácia;

2- Sempre haverá valetes a fingir que tudo está bem, a produzir números e pesquisas, como forma de bendizer as políticas públicas de segurança estapafúrdias;


3- A prática de tratar bandidos como “vítimas da sociedade” para tentar a humanização e a igualdade entre as pessoas, não pode encobrir o fato de que hoje estão a rapinar os trabalhadores, sob o manto, bem perceptível, da impunidade.